Três textos quase inéditos da Antropofagia

Apresentamos, a seguir, três textos quase desconhecidos do movimento antropófago, com exceção, talvez, do primeiro, que reaparecerá, com variações, em livros de Raul Bopp. Foram publicados no Diário da Manhã, órgão de imprensa oficial do governo do Espírito Santo, e soubemos da sua existência através da pesquisa de Luiz Busatto (O modernismo antropofágico no Espírito Santo. Vitória: UFES, Secretaria de Cultura, 1992), que fornece uma lista completa dos textos antropófagos publicados ali (alguns que já tinham sido publicados na Revista de Antropofagia, e outros inéditos, dos quais transcrevemos apenas alguns). A sua presença naquele periódico se justifica por dois motivos. Em primeiro lugar, a ligação do movimento com o Secretário de Instrução capixaba, Atílio Vivacqua, e seu assessor, Garcia de Rezende: ambos colaboraram para a Revista de Antropofagia e ofereceram estrutura e local (Vitória) para o Congresso Mundial de Antropofagia (pensado inicialmente como Primeiro Congresso Brasileiro de Antropofagia, a ser realizado no Rio), que acabou não se realizando. A segunda razão é apontada por Raul Bopp: “a Agência Brasileira”, na qual trabalhava com Jayme Adour da Câmara, “através da sua rede de jornais por todo o país, divulgava, com frequência, súmulas dos acontecimentos no mundo das letras”, entre as quais textos antropófagos – com o que podemos presumir que outros materiais quase inéditos do movimento antropófago estejam dispersos em jornais locais.

Como dissemos, o texto de Bopp é mais familiar aos conhecedores da Antropofagia. Todavia, os dois outros que escolhemos tem peculiaridades e apresentam novos aportes ao estudo do movimento. Em um dos textos aqui transcritos, sem assinatura, aparece a única referência dos antropófagos a Jakob von Uexküll, tido como um dos fundadores da moderna ecologia, e mais conhecido pelo seu conceito de Umwelt. Geralmente vertido como “mundo-próprio”, o termo talvez se traduza melhor por “mundo-ao-redor”, ou “circum-mundo”, e foi usado por Uexküll para designar os diferentes mundos animais, num quase-perspectivismo. Ou seja, a referência revela-se um prato cheio para a contemporânea reavaliação da Antropofagia. Por fim, o texto de Clóvis Gusmão é o único fragmento publicado, até onde vai meu conhecimento, do que seria um livro que ele estaria preparando, segundo o relato de Oswald em entrevista de 1º de setembro de 1929: “Clóvis de Gusmão prepara o estudo sociológico Tenupá-Oikó, ensaio sobre a filosofia do ‘Deixa está!’” [“deixa está” seria a tradução da expressão em tupi tenupá oikó – ou vice-versa…]

Alexandre Nodari


 

18 de agosto de 1929

Brasil, choca o teu ovo…
Excerto dos “Trezentos versículos antropofágicos”
Por Raul Bopp

1º – A descida antropofágica veio determinar uma estrutura nova do pensamento de hoje. Violenta e agressiva, mas necessária. Não podíamos pretender um reajustamento com o que já existia. Armistícios no sentido das conveniências do maior número. Não. Foi preciso sair fora da caserna. Tomar posse da época. Meio a força. A pau. Fraturar o pensamento velho. Enfiar polpas moles no espeto. Dentro de uma clareira, florestal. Entre alaridos e cauim. Como nos dias de festa grande. Antropofagicamente.

*

2º – Quem não está com o penacho da tribo não tem garantias. O nosso “dia do juízo” também chegou. Cunhambebe está pesando as almas. De uma em uma. Pau na cabeça.

*

3º – Que história é essa de “recristianização do Brasil”? Pra que? Para afirmar-se em função de que?

Ideia desacompanhada de lógica. Fora do sentido histórico. Carece de significação pra ser levada a sério.

Pois se o mal do Brasil vem da catequese! “Doença da Terra”. Enxerto de mata-pau.

*

4º – A fórmula não nos serve. Nada soluciona. Desconcorda com a época. Ainda é dos tempos do camisolão.

Num momento em que se fundam novos temas humanos, com demolição da velha sensibilidade, a recristianização quer nos reabsorver a um ambiente colonial. Santa Madre Igreja, ama seca, dando-nos de mamar leite de Santo Agostinho. Pois sim…

*

5º – Com essa fórmula mental estaríamos de novo a cabresto. Maxilares em férias. Na calmaria do humo-dócil. Presos a um conservantismo inútil. Dentro da mesma gravitação de ideias usadas.

O Brasil continuaria assentado nas mesmas bases. Quatro séculos sem evolução. Apenas uma nova adubação clerical aos cuidados do “Olhinho de Roma”. O facio de batina e o sinal da cruz vão salvar a terra de Cunhambebe… Esperem bem.

*

6º – Essa gente de rabicho cristão apartou-se da sua geografia. Meteu-se numa atmosfera de refúgio. Descontatou-se da realidade. Duzentas léguas de regressão. Soterrados. Ainda acreditando em velas de cera. Sem compreender que há um sentido novo na vida. Uma nova demarcação de ideias assentando em bases biológicas. Único ponto de partida, marco-zero de todos os problemas: o homem.

*

7º – Nós vamos é tomar pulso da Terra; consultar a floresta. Enfrentar problemas que se confundem em medida; ajustá-los em outras proporções. Material de fora tem vistorias na aduana. “Recristianização” em caixotes desse tamanho não passa. Paga imposto de objeto de luxo. As tarifas afora mudaram…

*

8º – Estamos recrutando fatores postos à margem. Forças escondidas. Mal apalpadas. Que ainda não couberam no sistema métrico ocidental. Índio. Raça-alicerce. A qual está em contato com a terra. Subjacente. Mas determinando as linhas do edifício.

*

9º – O Brasil ainda não tem uma contabilidade social. Possui apenas a sua fixa geografia: Peso, altura, capacidade torácica, etc. Coisas do Gabinete de Investigação Territorial. Faltam-lhe tests.

Elementos de indução. Exames do seu modo de ser. Só depois disso é que poderá advertir-se de uma realidade psicológica. Substancial a si mesmo.

Enquanto não nos desumbigarmos do ocidente, o pensamento continuará tendo uma conformação uterina; sem nutrição própria. Mais ou menos placentária.

*

10º – Todos os nossos movimentos de emancipação tem tido um caráter fragmentário. De atuação restrita. Com preocupações parciais. Nunca se totalizaram num programa. Por falta de diagnóstico. Num desconhecimento de causas e concausas.  Resultaram assim todos eles uma espécie de tratamento local. Medicina de sangrias. Terapêutica de ginapismos.

*

11º – O mal, entretanto, vinha de longe. Entre pequenas suspeitas. Mas sem sofrer denúncia. Sempre distanciado das análises.

A catequese trazia credenciais de ordem superior… Vinha para “salvar a humanidade”… Toda embandeirada de dogmas. Por isso tornou-se tabu.

Amarrou o homem à ideia de pecado. Sob uma alta espionagem de consciência. Ajuste de contas para mais tarde. Com encenações de Apocalipse. Esse terror filtrou-se fundamente no espírito do povo, rebaixando o sentido de vida. Soube a manumissão Jesuíta.

Desse modo, a catequese conservou a temperatura moral que lhe convinha.

*

12º – A idade média coalhou todo o filão de pensamento novo. E em determinadas estratificações de cultura. Com linhas divisórias marcadas pela Escolástica. Tudo parava ali. Fora dali era apontado de ilegitimidade. E taxado de herético.

Dogma, parede da arquitetura feudal.

Lá fora, os dragões. Uivos de espíritos malignos, em marcha. O pecado mortal mordendo a carne. Recalcando impaciências. Súcubos fungando atrás das sacristias…

*

13º – Nesse ambiente de inquietação brotaram as primeiras raízes da América. Nutrida de superstições. Com estratos morais que ainda guardam vestígios de uma histeria mística. Restos daquela trágica paranoia das Cruzadas. Heranças guardadas pelo Santo Ofício.

*

14º – Aqui nestes lados a cruz ditou bases à nossa organização. Apoderou-se das oportunidades com o instinto das conveniências. Intolerante e exclusiva. Sem consultas às latitudes. Desatendendo a terra.

Transplantou para cá os mesmos preceitos que amarravam o ocidente cristão. A mesma moral de uso obrigatório.

Leis foram confeccionadas no outro lado. In abstracto. Mal desencaroçadas do latim. Mas sempre com o devido respeito às vírgulas das bulas papais.

E foram nos mandando as forais. As regras de abstinência e de bem viver. Trechos do liber sextus decretalium. E a Casa de Suplicação, no fundo vinham ainda as capitulares. Pedaços do Fuero Juzgo. A lex Wisigothorum e Las Siete Partidas, Glosas de Bartolo e de Cujácio. Com um cheirinho de placenta canônica. Mais tarde ensalsichadas nas Ordenações.

Daqui destas bandas do Mar-oceano só mandaram perguntar uma vez se o “Gentio” também era gente…


18 de agosto de 1929

A descida antropofágica
Comunicado especial da Agência Brasileira

RIO, julho, (Agência Brasileira) – O assunto literário aqui e em São Paulo, nestas últimas semanas, continua sendo a descida antropofágica, movimento de ideias lançado na terra roxa em maio de 1928; mas que somente agora encontrou a sua feição definitiva.

É discutível se essa feição seria a melhor de quantas pudesse tomar, mas a verdade e o entusiasmo dos seus adeptos e a reação silenciosa dos seus adversários a estão arrastando para uma culminância ainda não atingida por nenhum dos movimentos literários que a precederam.

Os modernistas argumentarão que os antropófagos encontraram o ambiente preparado por eles. E – o é inegável – semeado com algumas ideias sadias; a morte da arte pela arte, a falência da chave de ouro e de todos os preconceitos estéreis.

A que os antropófagos responderão, como aliás já responderam, que reconhecem tudo o que o modernismo fez, mas querem que se reconheça que ele não realizou senão uma parte mínima do que deveria ter realizado. Ficou dentro da literatura. E, por isso mesmo, não compreendeu o caso do Brasil social, religioso, político e econômico.

Ora, sendo a arte uma expressão do ambiente geográfico e racial, nunca seria possível imprimir-lhe uma feição verdadeiramente nova de um país burocrático e senil.

Toda arte que pudesse mostrar alguma beleza imprevista, ou um sentido irrevelado, – dizem eles – tornar-se-ia por si própria incoerente. Aérea. Sem a raiz identificadora que a deveria prender à terra. Mais ligada ao ocidente falido do que à América jovem.

*

É precisamente contra essa situação humilhante de feitoria europeia que os antropófagos querem reagir. E daí a volta ao índio.

O que é certo, porém, é que foi ainda na velha Europa que os orientadores da descida encontraram os gérmens da doutrina e a confirmação história da sua eficiência. De fato: Quem quer que procure as raízes da antropofagia encontrará de um lado Spengler e de outro Freud. A falência do continente europeu e a reabilitação do indivíduo biológico. Se Spengler nos mostra a morte uma região intoxicada pelas teologias e pelos códigos, Freud nos leva mais longe ainda: leva-nos ao sexo-legislador. De ambos chegamos às sugestões de Uexküll para uma nova concepção biológica das sociedades humanas.

*

Que os dogmatismos de qualquer espécie, não encaminhando o homem a um ritmo relativamente harmonioso de vida, provam-no a Europa de hoje e o desespero vitorioso dos Estados Unidos entre negros, mongóis e sem trabalho.

Foi justamente a reação ao dogma o esteio principal da civilização atual. De Lutero (a falibilidade do papa) decorreu a revolução francesa (a falibilidade do rei). Da transformação ocasionada por ambos emergiu Rousseau (o homem natural).

Os antropófagos não querem mais a cultura falsa do ocidente, e os seus dogmas mais errados ainda. Também não querem Rousseau. Aceitam o homem natural como um símbolo duplo da potencialidade geográfica e do indivíduo sem preconceitos, humano, apto por isso mesmo a aprender uma verdadeira fórmula de felicidade coletiva. Sem essa nova feição de desequilíbrio de classes com que o comunismo se apresenta. Sem a nobreza. Nem o predomínio do clero. Antes pela reabilitação de todos [os] indivíduos e pela extinção desse grupo de “homens-coisa” de que fala Pontes de Miranda, que não têm capacidade para possuir e só sabem ser possuídos.

 


21 de julho de 1929

4 pedaços do tenupá oikó
Clóvis Gusmão

18 – Moral biológica. Mastigadazinha no estômago do mato, entre correntes de tradições eugênicas culminadas no dever da vingança:

“Contam que no tempo-longe uma tartaruga matou um gavião que deixava um filho pequeno. O gaviãozinho um dia foi caçar e encontrou penas no caminho. Chegou em casa e contou. A mãe dele disse: meu filho, aquilo são penas do seu pai que a tartaruga matou. O gaviãozinho calou-se. Cresceu. Já grande, experimentou forças no grelo do meriti. Não arrancou. Disse: inda não tenho forças. Tempos depois, voltou e arrancou o grelo do meriti: “Agora vou vingar meu pai!”

20 – Contra a moral – convenção, a dignidade humana e descodificada do índio. Conceito novo da virgindade. Espocando nos ritmos da sabedoria indígena. A procriação esteio-mãe da sociedade. A ingenuidade natural de todas as coisas na consciência das energias fecundadoras.

“no nosso princípio apareceu no rio Ukaiary uma tribo de mulheres que não podiam ter filhos porque os maridos eram decrépitos. O pajé perguntou: Vocês estão tristes? Sim. Porque o mundo vai se acabar”.

– Tudo isso sem maldade. A virgem tupi, integrada no papel que lhe foi revelado no símbolo da trindade teogônica, sente a humilhação de ver extinta a sua tribo.

23 – A idade natural pro contato dos sexos. O código superstição das mboiararas moradoras dos lagos mais gostoso do que o artigo 208. No ritual da cobra d’água.

“quando alguma moça era suspeitada de ter perdido a virgindade, antes da puberdade completa, os pais a levavam pro lago da mboiarara. Ficavam na beira cantando: ‘arara, aramboia, eucecui meiú’. Se a moça era virgem, a cobra recebia os presentes que ela lhe levava e ia-se embora, cantando também. Se não, a comia, dando roncos que abalavam a terra”.

– Claro que a moral despida de preconceitos estéreis. Mas dentro de um fundamento exato de eugenia. A sabedoria dos feiticeiros escorando apenas a grandeza da tribo. Sem violentar os domínios do instinto.

31 – Da legislação cósmica em que as potências teogônicas atuam sobre os incendiários de mato ou os matadores de caça-parida, passamos à legislação vida-e-sexo. Sem Freud. Nem organização soviética. Antes de Viena e Moscou, a inteligência que sobe do mato.

– Pela legitimidade dos filhos do boto. E contra a hereditariedade princípio selecionador.

– Diante do imperialismo papal, o comunismo sadio dos morubixabas selvagens. A lei de Jurupary.

– A reciprocidade do braço. Dentro das revelações recíprocas de hospitalidade.

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